28 Agosto 2010

Uma mulher luta para não definhar face ao drama no qual vive. O seu corpo sustenta as marcas irreversíveis de um horror. As marcas, rastos de uma esperança nula sobrepondo a pele, alteram aquilo que chega aos olhos do mundo.

Todo ele se move educada e delicadamente e com uma sensualidade invejável e desejável. Vê-se os contornos e no entanto, estão escondidos os vestígios.

Vestidos justos, blusas e saias de cintura alta, aumenta a fasquia com a maquilhagem e sorrisos e assim se apresenta perante a sociedade. Sujeita-se a provas de valor e ninguém questiona a sua perfeição. Ninguém a vê verdadeiramente mas todos a conhecem. Pelo nome, de vista ou fruto de uma amizade fraudulenta.

No reflexo de um espelho qualquer vê-se tocada por veneno, um mapa cravado no corpo. Chora e deixa-se cair sobre os mosaicos, nunca o odiou mas foi com ele que prestou contas.

Ela faz da sua vida uma peça de teatro.

TemperanceOut às 23:20
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20 Agosto 2010

Ainda penso em ti. Digo-te que não és uma pessoa assídua e pontual no que me diz respeito mas ainda apareces. Não digo como antes mas sim como agora, sem nós e laços que nos amarrem.

És como uma boa fotografia tirada a preto e branco, um bom momento que acabou no dia de outras gentes.

Não havia futuro reservado para nós, e apenas o negávamos para ser menos penoso. éramos jovens tolos e perdidamente apaixonados. Não tenho nenhum pertence teu e daquela altura só tenho a carta que guardo entre as páginas de um livro, espero que intacta.
Vê o que tentámos fazer. Eu e tu, a tentar ser donos das nossas vidas já desde cedo, puxar-lhes as rédeas, sem saber guiar um carro.

Não sei como estás, onde estás e o que fizeste da tua vida sem mim, não faço perguntas porque não quero ter as respostas. Fico-me por te dobrar e guardar na carteira.

TemperanceOut às 23:41
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19 Agosto 2010

Uma figura feminina surge de dentro de um dos compartimentos da casa. Usa o cabelo apanhado num rabo-de-cavalo e uma t-shirt que pegou emprestada e que facilmente lhe esconde o corpo esguio.

Senta-se e apoia as longas pernas num dos braços da poltrona, cor de amêndoa, negligenciando quaisquer regras de etiqueta.

Ele apresenta a postura correcta de um homem da sua idade, está sentado no sofá, também cor de amêndoa, matematicamente posicionado no centro da sala e próximo da poltrona ocupada. Possui um ar cansado, cauteloso e estrategicamente formal.

Sem antes lhe ter dirigido sequer um olhar, vê-se obrigado a observá-la, incutindo a si próprio alguns limites. Desenha mentalmente as suas pernas para delas ter um esboço. Vê o seu corpo curvilíneo e delicado por detrás das vestes e sente-o entre as suas mãos que já tantos corpos tocaram, ainda assim, nunca nenhum como este. Esculpe-o no seu próprio desejo. Tem consciência que uma vez enredado nele perde a sabedoria de uma vida, a sobriedade e as feridas do tempo.

Ela observa-o sem se deixar apanhar e converte-lhe as feições em palavras.

Ele demora-se no seu corpo e vê os hematomas que pôde, de tempos a tempos, gravar sobre a sua pele clara.

Sem olhar o relógio, está na hora de a levar a casa.

TemperanceOut às 14:46
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